MISTERIUM
“Eu vi ainda debaixo do sol que a corrida não é para os mais ligeiros, nem
a batalha para os mais fortes, nem o pão para os mais sábios, nem as
riquezas para os mais inteligentes, mas tudo depende do tempo e do acaso.”
ECLESIASTES
Ao tempo e ao acaso eu acrescento o grão de
imprevisto. E o grão da loucura, a razoável loucura
que é infinita na nossa finitude. Vejo minha vida e
obra seguindo assim por trilhos paralelos e tão
próximos, trilhos que podem se juntar (ou não) lá
adiante mas tudo sem explicação, não tem explicação.
Os leitores pedem explicações, são curiosos e fazem
perguntas. Respondo. Mas se me estendo nas respostas,
acabo por pular de um trilho para outro e começo a
misturar a realidade com o imaginário, faço ficção em
cima de ficção, ah! Tanta vontade (disfarçada) de
seduzir o leitor, esse leitor que gosta do devaneio.
Do sonho. Queria estimular sua fantasia mas agora ele
está pedindo lucidez, quer a luz da razão.
Não gosto de teorizar porque na teoria acabo por me
embrulhar feito um caramelo em papel transparente,
me dê um tempo! Eu peço. Quero ficar fria, espera.
Espera que estou me aventurando na busca das
descobertas, “Devagar já é pressa!”, disse Guimarães
Rosa. Preciso agora atravessar o cipoal dos detalhes
e são tantos! E tamanha a minha perplexidade diante
do processo criador, Deus! Os indevassáveis signos e
símbolos. Ainda assim, avanço em meio da névoa,
quero ser clara em meio desse claro que de repente
ficou escuro, estou perdida?
Mais perguntas, como nasce um conto? E um
romance? Recorro a uma certa aula distante (Antonio
Candido) onde aprendi que num texto literário há
sempre três elementos: a idéia, o enredo e a
personagem. A personagem, que pode ser aparente
ou inaparente, não importa. Que pode ser única ou
se repetir, tive uma personagem que recorreu à
máscara para não ser descoberta, quis voltar num
outro texto e usou disfarce, assim como faz qualquer
ser humano para mudar de identidade.
Na tentativa de reter o questionador, acabo por
inventar uma figuração na qual a idéia é representada
por uma aranha. A teia dessa aranha seria o enredo.
A trama. E a personagem, o inseto que chega naquele
vôo livre e acaba por cair na teia da qual não consegue
fugir, enleado pelos fios grudentos. Então desce (ou
sobe) a aranha e nhac! Prende e suga o inseto até
abandoná-lo vazio. Oco.
O questionador acha a imagem meio dramática mas
divertida, consegui fazê-lo sorrir? Acho que sim.
Contudo, há aquele leitor desconfiado, que não se
deixou seduzir porque quer ver as personagens em
plena liberdade e nessa representação elas estão como
que sujeitas a uma destinação. A uma condenação.
E cita Jean-Paul Sartre que pregava a liberdade
também para as personagens, ah! Odiosa essa
fatalidade dos seres humanos (inventados ou não)
caminhando para o bem e para o mal. Sem mistura.
Começo a me sentir prisioneira dos próprios fios que
fui inventar, melhor voltar às divagações iniciais onde
vejo (como eu mesma) o meu próximo também
embrulhado. Ou embuçado? Desembrulhando esse
próximo, também vou me revelando e na revelação,
me deslumbro para me obumbrar novamente nesta
viragem-voragem do ofício.
(TELLES, Lygia Fagundes. Durante aquele estranho chá: perdidos e achados.
Rio de Janeiro: Rocco, 2002.)