sociedade
quem somos? conhecemo-nos o suficiente para entendermos as preocupações e desventuras de toda uma vida? o que aconteceu, acontece e o que está por acontecer? - cruamente retratado nos sonhos que temos em todas as noites que queremos esquecer tudo. conhecendo pessoas (um subterfúgio), podemos nos entender de certa forma. mas conhecer o mundo, o homem, e esperar que as máscaras caiam e que as cortinas se abram mostrando a face enrugada e o camarim de tudo e de todos, é um raso paliativo e não resolve nossas dificuldades. quem fomos? o que seremos? talvez uma pedra seja emblema de nossas ideologias; as nuvens, metáfora de nossa inconstância; o chão, que às vezes some, transcrição do último ato da peça teatral da existência. vazio: falta, dissabor, estado original de tudo aquilo que se entende, da representação do mundo a nós, fatos que apostam fichas a preencherem nossas vontades e sonhos de conquista. apostas que - sabemos - serão perdidas. somos, na verdade, natimortos. não há escape. das avenidas das grandes cidades às pequenas ruas dos subúrbios somente uma coisa se vê: ilusões. felizes aqueles que fecham os olhos para as verdades da vida. estes, sorriso no rosto, vivem (no maior sentido da palavra). exceções? somos, sim: por opção. e tal ousadia talvez não seria suficiente para nos poder sorrir enquanto conhecedores daquilo que está por trás do véu de maya que encobre tudo (fatos, fábulas, feições...)? o que seremos? nós! nós... não há palavra mais estranha... nós. em nós desnecessariamente há tudo. em nós, há nada. em nós há sons, sabores, vínculos com o essencial para nos manter presentes. mas o que queremos? por opção, escolhemos a trilha do intuito de ser livre - liberdade esta que, relativa, nos dá asas para alcançarmos até certa altura... após isso: queda; pois a vida, queda; os dias, queda; minutos?, segundos?, átimos perdidos nos ponteiros de um relógio?: queda. acaso ousaremos nos levantar? acaso pensaremos em escolher um dia a mais para passarmos em branco, vendo o branco da vida no branco dos olhos das brancas pessoas - pálidas de espanto - como nós, que desejam apenas... não importa o que desejam! tudo, no fim, tornar-se-á o resquício da ilusão de ser vivo, existindo a sós num mundo onde se fala tanto e tão humildemente em sociedade.